Dono de imóvel de onde idosa caiu pede a técnico para apagar imagens de câmeras; ÁUDIO

São Paulo

Empresário, que mora em Sorocaba (SP), disse à polícia que idosa teria caído após tentar descer da janela com uma corda feita de lençol, após ser flagrado com ela pela namorada. Idosa teve traumatismo craniano e morreu em agosto. Vera Lúcia Moreira de Sousa morreu após cair da janela de uma casa em Sorocaba
Arquivo pessoal
O empresário Antonio Inácio Ribeiro Filho, de 68 anos, dono do imóvel em Sorocaba (SP) de onde uma idosa morreu após cair da janela, pediu a um técnico para apagar as imagens das câmeras de segurança que teriam registrado o acidente.
Veja o que se sabe e o que ainda falta esclarecer sobre o caso
A queda aconteceu de noite, entre os dias 28 e 29 de julho. Vera Lúcia Moreira de Sousa, de 61 anos, estava na casa do empresário quando a namorada dele chegou. Para que Vera não fosse vista, eles tiveram a ideia dela sair do imóvel pela janela e descer com uma corda feita de lençóis. Durante a descida ela caiu e bateu a cabeça, segundo a primeira versão que o empresário contou à polícia.
Antônio Inácio e o irmão levaram a idosa até a Santa Casa, onde ela chegou com quadro de traumatismo craniano. Ela foi transferida para o Hospital Regional, por conta da gravidade de seu quadro de saúde, mas não resistiu aos ferimentos.
Antônio Inácio, dono da casa de onde idosa caiu, já foi ouvido pela polícia
Gabriel Torres/TV Tem
Ele foi ouvido dois dias depois do acidente e liberado. Na saída, falou com a imprensa, negou a história do lençol e disse que o que aconteceu tinha sido uma “fatalidade”. A idosa caiu no quintal de outra casa que também pertence à família do empresário.
O áudio, obtido com exclusividade pelo G1, é uma conversa entre o empresário e um técnico que faz instalação de câmeras de segurança. A reportagem apurou que a Polícia Civil já ouviu o depoimento do técnico e tem essa conversa.
Dono de imóvel de onde idosa caiu pede a técnico para apagar imagens de câmeras; ouça
Ouça acima o áudio e confira a transcrição abaixo:
Empresário: Você tem equipamento pra apagar aquilo que eu pedi?
Técnico: Acho que tenho, tem que pegar no carro porque precisa de monitor.
Empresário: Sabe por quê? Sabe aquela câmera nova que você instalou lá? Essa câmera não podia estar gravando, cara. Sabe por quê? Eu fiz um socorro meio rápido, correndo lá naquela escada que não vai ficar legal. Você consegue apagar o dia 28 e fazer de conta que não está gravando, apagar tudo o que aquela câmera gravou, você consegue?
Técnico: Eu posso tentar
Empresário: Então marca aí. A câmera você apaga tudo o que gravou desde quando você instalou ela lá. Apaga tudo, tudo, tudo. E a minha você apaga do dia 7 pra trás tudo também.

Empresário: Vou explicar pra você. No dia 7 essa pessoa foi na minha casa, ela entrou lá, mas eu falei que foi só uma vez que foi agora sábado.
Técnico: Entendi, mas aconteceu algum problema?
Empresário: Aconteceu porque a minha companheira veio de noite, pegou ela lá. Ela pulou aquela janela funda, e não conhecia, se machucou. Fraturou o crânio lá embaixo.
Técnico: Meu Deus do céu. Tá bom, vou ver o que dá pra fazer.
O empresário, então, passa a combinar um horário para que o técnico vá até o imóvel apagar as câmeras. Ele insiste que o técnico vá cedo, para não encontrar com ninguém.
Empresário: Eu tô preocupado do cara subir atrás de você e ficar olhando, entendeu? Teria que ser fora desse horário pra dar tempo. Não sei se é rápido de fazer ou não. Não vai me comprometer com a mulher, quero que você apaga só porque se ficou algum rastro do dia 7 ao dia 8 de julho você apaga, entendeu? O que que você vai conseguir fazer pra mim agora no momento?
Quando o técnico responde que não vai demorar para ir na casa do empresário, ele completa:
Empresário: Talvez estejam fazendo uma pericia lá, se estiver gente fazendo a perícia você já sabe onde é e já vai subindo, tá bom? Aí você sobe, não deixa ele ver não, você sobe e apaga tudo.
Técnico: Eu vou ver se dá pra apagar lá, tá? Vou fazer o possível, mas acho que dá sim.
Empresário: Você conhece o aparelho? Voce já conseguiu fazer isso?
Técnico: Consegui, já apaguei já.
Empresário: Ah, então tá beleza. Então faz essa gentileza pra mim.
Empolgado com a possibilidade do técnico conseguir apagar as gravações, o empresário faz uma solicitação ainda mais abrangente e pede para que sejam excluídas as gravações de 50 dias, por conta de “meninas” que ele levou para casa.
Empresário: Aí você apaga se tiver 30, 50 dias gravado você apaga, porque eu levei umas meninas lá eu não quero que aparece, entendeu? Aí fica ruim pra mim. Vão falar: “o cara tinha casa de prostituição”, entendeu? Eu quero que você apaga isso e deixa só do dia 10 de julho pra frente. Vê aí o que você agiliza pra mim, meu amor, depois a gente acerta.
O empresário, então, dá orientações de como o técnico deve fazer para conseguir apagar os arquivos sem que os peritos da Polícia Civil percebam.
Empresário: Qualquer coisa você fala pro pessoal que você vai mudar a câmera. Faz o seguinte, sobe pela escada, mas não deixa a escada no chão, puxa pro telhado lá em cima, senão o cara vai atrás de você, entendeu? Fala que você vai usar pra ver outra casa lá e deixa o cara sozinho lá. Senão ele vai junto com você pra ver o que você vai fazer. Os caras são ligeiro.
Técnico: É, mas provavelmente isso vai acontecer, porque eles são “bicho feio”.
Empresário: Então, mas por isso que eu to mandando você ir antes das 3 (15h) pra ir agilizando isso daí. Faz isso pra mim, me ajuda aí, cara. Não vai 4 horas não, vai bem antes. Você já sabe o tempo que demora pra subir, qualquer coisa se chegar alguém eu falo ‘Olha, ele já tá lá tirando já”, aí pronto.
Técnico: Beleza, fica tranquilo.
Empresário: Cara, faz pra mim, meu, eu tô apavorado. Tchau, meu querido.
Investigação
A Delegacia de Defesa da Mulher, que investiga o caso, já enviou o áudio para ser periciado no Instituto de Criminalística. O IC também analisa as imagens das câmeras de segurança apreendidas no imóvel.
A advogada do empresário afirmou que já tinha ciência dessa conversa, mas já faz alguns dias que não consegue conversar com ele por ele estar passando por um quadro de depressão.
Relacionamento
A família de Vera Lúcia afirma que ela era namorada de Antonio Inácio – que tinha ficado viúvo há poucas semanas. Os dois se conheceram em uma festa de igreja e começaram um relacionamento cerca de 20 dias antes do acidente. Ela planejava apresentar o idoso à família em setembro, quando comemoraria aniversário. Mas, conforme o próprio empresário disse à polícia, ele já tinha outra namorada.
O G1 localizou a mulher, de 55 anos, mas ela não quis falar com a reportagem.
Em um boletim de ocorrência datado de 2013, ela acusou o empresário de lesão corporal, ameaça, difamação e violência doméstica. A mulher não levou o caso adiante.
Veja mais notícias da região no G1 Sorocaba e Jundiaí