ONG cria escultura de gelo em SP para pedir proteção a elefantes e evitar extinção

Natureza

Escultura de gelo em forma de elefante feita pela Wildlife, em Nova York
@amarula_official
Quem passar neste domingo (12) pela Avenida Paulista, ali em frente ao shopping Center 3, vai ver uma escultura que representa um elefante de gelo de quase três metros de altura, com um coração imenso pulsando dentro dele. Foi este o jeito que a ONG internacional Wildlife escolheu para lembrar aos passantes que estaremos comemorando, internacionalmente, o Dia do Elefante. Mas a data não é festiva. Hoje, a cada 15 minutos, o planeta perde um elefante para a caça ilegal e, se este quadro não mudar, em 20 anos eles vão desaparecer da natureza.
A escultura levou sete horas para ser esculpida, foi feita em iniciativa conjunta com a marca Amarula e, exposta à temperatura ambiente, é claro, vai se derreter. Assim será possível chamar atenção para a situação desses bichos, que tiveram a má sorte de terem nascido com presas de marfim, matéria que passou a interessar ao homem, que se transformou, assim, num de seus mais cruéis predadores. Esses animais são os maiores da atualidade e muito importantes para o ecossistema florestal: são capazes de dispersar sementes em um raio de 1km a 57km. Além da caça ilegal, o aprisionamento é outro problema que contribui para a extinção deles. Na América Latina, estima-se que cerca de 50 animais vivem em cativeiro, em condições precárias, e sofrendo maus tratos.
Busquei conversar com Paula Kahumbu, diretora da Wildlife, a fim de trazer aqui mais informações sobre o desafio de cuidar desses e de outros seres selvagens num mundo que está sendo tão pouco respeitoso com o meio ambiente. Kahumbu é PhD em Ecologia (formada em Princeton), uma das mais reconhecidas conservacionistas da vida selvagem na África, e se tornou especialista em elefantes. Segue a entrevista, feita por mensagem eletrônica:
Estamos vivendo um momento difícil e os impactos causados pela humanidade no meio ambiente estão se tornando cada vez mais graves, prejudicando milhões de pessoas e animais. Com secas, tufões e furacões, a vida selvagem também está danificada? Me conte um pouco mais sobre isso, por favor.
Paula Kahumbu – As mudanças climáticas afetam as pessoas, exacerbam a pobreza. E a pobreza é, provavelmente, o maior inimigo da vida selvagem, uma vez que os pobres não têm muitas opções, eles usarão os recursos naturais de formas extremamente prejudiciais, como derrubar árvores para lenha ou matar animais para alimentação. Os elefantes precisam comer cerca de cem quilos de alimentos por dia – quando os territórios estão degradados, eles não podem sustentar os elefantes e esses animais começam a invadir fazendas, afetando as pessoas. Isso resulta em ferimentos e até mortes.
Deve ser difícil informar as pessoas que vivem nas cidades sobre a vida selvagem. Esta é uma missão de sua organização. Fale um pouco sobre esse processo, por favor.
Paula Kahumbu – É uma parte importante do nosso trabalho, que está mudando corações e mentes. Fazemos isso conectando pessoas à vida selvagem para que possam agir para salvá-las. Temos um programa chamado Wildlife Warriors, no qual recrutamos quenianos de todas as classes sociais e os treinamos.
Existe alguma história interessante sobre o resgate de animais selvagens em situações de perigo que você poderia nos contar?
Paula Kahumbu – Os elefantes nunca deixam de surpreender e de me maravilhar. E a maioria das pessoas ouve sobre as histórias reconfortantes de salvar pequenos elefantes fofinhos. Mas, em 2014, eu estive diretamente envolvida no salvamento de um tusker (um dos maiores tipos de elefante) e minha diretoria se reuniu no Quênia para isso. Nós os levamos para o Parque Amboseli, que abriga os elefantes mais bem estudados do mundo. Havia um indivíduo particularmente raro, Tim, um gigante Super Tusker, com presas tão grandes que acreditávamos que ele era o maior elefante da Terra. Durante a reunião, recebemos uma ligação dizendo que Tim estava por perto e fomos vê-lo. Ele estava sozinho e estava se alimentando de uma palmeira alta e, enquanto o observávamos, ele começou a andar e pudemos ver que ele estava mancando. Logo ficou óbvio que ele estava com muita dor. Ele teve uma lesão na coxa esquerda. Nós relatamos isso e ele foi tratado – sua ferida foi causada por uma lança que atiraram nele porque estava atacando fazendas próximas. A ferida poderia tê-lo matado, e decidimos que precisávamos protegê-lo. Levamos dois anos para obter permissão e apoio para colocar um colar de rádio em Tim. Foi um dia muito grande quando enfrentamos o Tim. Ele estava com seus parentes: Craig, que temos certeza de que deve ser seu irmão – pois eles são muito parecidos – e seu sobrinho Townsend. Tim não fugiu da equipe, fomos até ele e seus amigos ficaram para trás. Eles estavam muito agitados e chateados com o que estava acontecendo com Tim, nós pudemos perceber isso. Nós o sedamos e, quando ele começou a cair, os parentes se viraram e fugiram. Era como se ele tivesse dito para eles irem embora. Levou apenas algumas horas para colocarmos a coleira, e logo ele estava de pé novamente: olhou-nos, balançou a cabeça e depois se afastou. Horas depois, fomos procurá-lo para ter certeza de que ele estava bem e não conseguimos encontrá-lo. Mas vimos Townsend e Craig andando rapidamente, quase correndo, em uma direção específica. Eles estavam claramente sendo chamados por Tim, que estava a muitos quilômetros de distância. Nós os seguimos até encontrá-lo em pé sob uma árvore de acácia, balançando as orelhas gentilmente. Eles ficaram parados ali. Então, muito lentamente, Townsend se aproximou de Tim, cumprimentou-o num estilo típico de saudação de elefantes, tocando seu rosto. Tim ficou parado enquanto Townsend inspecionava o novo colar e era realmente óbvio que Tim queria que Townsend visse que tudo estava bem. Depois que Townsend inspecionou o colar, Craig se aproximou e deu uma olhada, antes que os três se afastassem. O colar do rádio está salvando Tim porque podemos rastreá-lo e mantê-lo fora das fazendas. Mas não esperávamos que ele compreendesse que nossa intenção era boa. Hoje estou convencida de que Tim já tem amigos que o protegem e isso foi além das nossas expectativas.
O site da sua organização traz um episódio de remoção de rinocerontes que deu errado. Você pode dar mais detalhes?
Paula Kahumbu – Fazia parte de um exercício administrativo, e deu terrivelmente errado. Todos os onze rinocerontes que foram movidos morreram. Nós ainda estamos esperando detalhes do que deu errado e como o governo do Quênia vai garantir que isso nunca aconteça novamente. Os quenianos estão profundamente chateados e ainda estão sofrendo com essa perda.
Você tem números que mostram quantos animais selvagens já foram perdidos devido à caça ilegal?
Paula Kahumbu – No Quênia, a caça ilegal de elefantes diminuiu em quase 90% e menos de cem elefantes morrem a cada ano devido a essa prática. Mas em toda a África os números ainda são altos – os últimos dados sugerem que estamos perdendo um elefante a cada 15 minutos, ou 96 por dia. Por conta da atuação da WildLifeDirect, em 2016 e 2017, 217 pessoas foram presas no Quênia por acusações relacionadas à posse de marfim e tráfico de marfim. Em 2016, um dos mais infames traficantes de marfim do Quênia, envolvido em uma apreensão de mais de 2 toneladas, foi preso por 20 anos graças ao nosso trabalho. Nós nos concentramos nos principais traficantes e estamos atualmente trabalhando em nove casos no Quênia. Nosso trabalho inclui aumentar a gravidade desses crimes chamando a atenção da mídia e ajudando os promotores a apresentar acusações de crime organizado que permitem a apreensão de bens e o congelamento de contas bancárias.
Como uma notícia como a do Rei da Espanha, que foi à África só para caçar elefantes afeta o trabalho de ONGs como a WildlifeDirect? Você acha que precisa de mais envolvimento de celebridades?
Paula Kahumbu – Há boas evidências de que as pessoas aprendem seus valores morais com seus líderes. Quando os líderes violam as leis ou se envolvem em atividades como a caça, enviam uma mensagem para seu povo e prejudicam o trabalho de organizações que estão tentando desenvolver o interesse mundial pela compaixão pelos elefantes.
Os reis sempre deram um mau exemplo, com o hábito de caçar para curar o estresse. Quando este hábito deixou de ser um lazer para ser visto como uma desumanidade?
Paula Kahumbu – A caça é ilegal no Quênia, embora nosso país colônia, a Grã-Bretanha, tenha sido de grandes caçadores. Os quenianos sentiram que era um insulto às nossas tradições e culturas matar nossos animais por prazer. Ainda há muitos países que promovem a caça, mas, apesar de todo o dinheiro que pode ser ganho, isso está mudando. A mudança é gradual, mas ocasionalmente há grandes questões que surgem. Quando um dentista americano atirou em um leão chamado Cecil no Zimbábue, por exemplo o efeito foi sentido em todo o mundo.
Yuval Noah Harari, o historiador do “Homo Sapiens”, disse em seu livro que a humanidade nunca terá uma trajetória livre de problemas enquanto tratar os animais como se fossem inferiores. Você concorda?
Paula Kahumbu – Sempre teremos pessoas neste planeta que vão comer carne de animais. Harari está certo: devemos aceitar o fato de que os seres humanos são apenas uma das muitas espécies no planeta Terra e que, como tal, não temos um lugar especial.