Por que torcemos pelas zebras?

Economia
A anfitriã Rússia foi a zebra da Copa. De um começo como a seleção número 70 do mundo pelo ranking da FIFA à eliminação nos pênaltis. A equipe comandada pelo sisudo Stanislav Cherchesov se tornou o xodó dos torcedores e comentaristas, principalmente depois de eliminar a Espanha. Antes, foi a Islândia, enquanto tinha chance na primeira fase. Mas não foi só pelo futebol aguerrido que as duas seleções empolgaram. Contou a favor que não eram favoritas.
Todo mundo quer ser campeão, mas se empolgar com o time mais fraco é parte de nossos instintos. Mas por quê? Um grupo de psicólogos – Jong Han Kim, Scott Allison, Dafna Eylon, George Goethals, Michael Markus, Heather McGuire e Sheila Hindle – decidiu testar.
No esporte, principalmente no imprevisível futebol, não faltam casos de times improváveis, como o Leicester, campeão inglês de 2016-17, que conquistaram títulos importantes. Em geral, as campanhas atraem novos fãs, que, deixando um pouco de lado seus próprios times, se juntam em favor do mais fraco.
Isso ocorre também no mundo dos negócios, por exemplo, no “efeito walmart”. A expressão vem da maneira como muitas pequenas comunidades americanas reagem à chegada da rede de supermercados, competindo com pequenos negócios locais.
Parte da razão, segundo os pesquisadores, é porque rejeitamos a desigualdade e tendemos a considerar que a parte mais fraca precisa se esforçar mais do que a outra. Também conta a favor sua campanha geralmente ser mais dramática enquanto se o favorito vencer deu a lógica. E ainda entra em ação a schadenfreude, palavra alemã que traduz no prazer de ver alguém – no caso, o mais forte – se dar mal.
Mas se a antipatia pelo mais forte – ou mais rico ou mais bem sucedido – é bem documentada, a aposta no perdedor é uma decisão da qual sabemos pouco. Para isso, foram realizados quatro experimentos.
No primeiro, 70 estudantes da universidade americana de Richmond foram divididos em dois grupos: o primeiro leu um texto sobre uma disputa entre dois times de basquete. Já o segundo grupo leu sobre uma disputa entre duas empreiteiras por um contrato.
Em ambos os casos um concorrente era mais forte do que o outro na disputa. Os participantes, por último, preencheram um questionário manifestando suas preferências. Quase 70% das respostas foram mais favoráveis ao azarão do que ao rival mais forte tanto no esporte como nos negócios. Para os pesquisadores, um sinal de que tendemos a preferir o mais fraco numa disputa.
O segundo teste visava verificar se o mesmo vale para um artista. A arte, afinal, é mais subjetiva e depende bastante do gosto pessoal. Para testar, outros 55 universitários foram também divididos em dois grupos. Todos eles observaram primeiro um quadro pintado por um estudante de arte.
Cada grupo recebeu então uma versão diferente da história do pintor: para o primeiro grupo, era um novato lutando por um lugar ao sol. Para os demais participantes, o autor do quadro era um pintor renomado. Os dois grupos depois responderam quanto gostaram do quadro e qual seu valor artístico.
Ao avaliar o quanto gostou, o primeiro grupo demonstrou ter simpatizado com a história do jovem pintor e deu uma nota média de 5,5 à obra. No grupo informado de que o autor era um artista famoso, a nota média foi de 4,6.
Mas quando tiveram de julgar o mérito artístico, os fãs do jovem pintor atribuíram uma nota média de 4,57 ao seu quadro contra 5,6 da nota de mérito artístico. Torcer pelo azarão, sugere o estudo, não impede ninguém de ver suas limitações.
Os pesquisadores ainda tinham mais uma dúvida: será que a simpatia pelo azarão é parte da essência humana ou algo cultural? Desde histórias infantis, como a da Cinderela ou da Branca de Neve, todos aprendem desde criança a torcer pelo mais fraco. O trabalho reuniu outros 60 estudantes.
Em um terceiro experimento, os participantes foram divididos em grupos de três ou quatro pessoas, eles eram levados até uma sala e então tinham de acompanhar no computador quatro vídeos animados com círculos tentando subir um morro. Um grupo cumpria a tarefa com facilidade, mas dois círculos eram mais lentos. No final, todos os participantes explicaram com qual círculo tinham simpatizado mais.
A preferência pelos círculos mais lentos foi 20% maior do que pelos demais. Em um dos vídeos, o círculo mais rápido atrapalhava o mais lento. Este foi considerado o mais antipático de todos. O aspecto mais interessante do teste, segundo os autores, é que não foi preciso dar nenhuma explicação para os mais desfavorecidos conquistarem a maioria.
Mas estamos sempre do lado mais fraco? Um quarto experimento foi conduzido. Desta vez, os participantes foram 46 homens e mulheres adultos e de classe média. Eles tinham de escolher, para o fornecimento de água da cidade onde moravam, entre uma empresa com apenas dois anos no mercado, descrita de maneira simpática, e outra que já atuava havia três décadas e tinha três vezes mais empregados.
Apesar da propaganda, dois terços escolheram a empresa mais experiente e 33% a menos experiente. Mas quando a pergunta era sobre quem devia fornecer a água para outra cidade, a maioria escolheu a novata. Os resultados, para os autores, mostram que nossa simpatia pelo mais fraco não supera nossos próprios interesses, mas volta a valer se não somos ameaçados.
É como quando a Seleção Brasileira ou nosso clube de coração enfrenta um time mais fraco. Nossa simpatia pelo azarão não nos impede de torcer para que seja derrotado. Mas contra os outros, sejam coreanos, russos e islandeses, que ganhe o pior.