Reflexões de uma noite sem luz na cidade

Natureza

Escrevo sem saber se este texto chegará a vocês porque estou sem internet.
Bem, na verdade, estou sem luz por conta de uma derrapada solene em minha organização administrativa de vida.
Em outras palavras: tirei todos os débitos em conta do banco e decidi fazer “como antigamente”.
As contas chegavam pelo Correios, guardava em locais específicos e, no dia certo, ia ao banco pagá-las.
Certo?
Em vez disso, optamos pela comodidade da tecnologia, apostamos em memória virtual e… bem… Vocês já perceberam, né?
Eu me esqueci de pagar uma conta de R$ 77 e a Light cortou minha luz porque tinha avisado, eu não li aquele aviso que vem no canto direito da conta… enfim.
Fiquei sem luz.
Já paguei, mandei o protocolo, pedi ajuda, fiz tudo direitinho.
E agora estou aqui, com o meu computador de mão, que nesta hora só serve mesmo como uma velha e boa máquina de escrever, a lamentar minha falta de bom senso organizacional.
Mas, quem me acompanha aqui neste espaço, sabe que não sou de jogar fora oportunidades de pensar, de refletir sobre as coisas.
Foi assim quando fucei aqui nos meus guardados, ainda à luz do dia, para encontrar a lanterna que me ajudaria a atravessar com um pouco mais de conforto a falta de luz à noite.
Encontrei uma, relativamente potente, que tinha comprado no Amapá, três anos atrás, quando fiz minha última viagem ao Arquipélago do Bailique para fazer reportagem sobre o processo de implantação do Protocolo Comunitário local.
Lanterna, no Bailique, é praticamente gênero de primeira necessidade.
Porque naquele pedaço do Brasil – país que já esteve entre as dez primeiras economias do mundo – em pleno século XXI, a eletricidade ainda é algo a se conquistar, é intermitente. As pessoas ficam dias seguidos sem luz, e para viver com tamanha privação precisam não só de lanternas potentes, mas também de uma estratégia especial voltada para esta falta.
Entram em cena os caríssimos geradores de luz, para alguns impossível de se conseguir. Quem tem, consegue manter o peixe na geladeira, as carnes de caça idem. Quem não tem, pede ajuda. Ou, simplesmente, vive com o que tem para comer sem precisar da comodidade do gelo. Mais ou menos como no século XIX? Talvez.
Nem de longe é parecido com o momento que estou vivendo agora, confortavelmente instalada na minha poltrona, preocupada apenas com algumas refeições congeladas que costumo comprar para a semana.
Mas gostei de me lembrar da cena em que, chegando de Macapá no barco que faz a linha até o Bailique, depois de dez horas de viagem, tivemos que nos guiar com as lanternas até nosso pouso. Isto incluiu uma caminhada sobre palafitas, coisa que eu e meus companheiros de viagem não estávamos acostumados a fazer. Somos seres de asfalto. No máximo, de paralelepípedos.
Mas, rapidamente, me acostumei. E o grupo que chegara comigo, composto de representantes de ONGs e de instituições governamentais, todos também usuários de internet, elevadores e condomínios onde não se aprende a viver fazendo contato real com tudo o que nos cerca, se viu, de repente, forçado a olhar… para o céu.
Pouco havia para se fazer a não ser conversar, trocar impressões sobre aquela incrível viagem.
As estrelas pareciam nos buscar e querer entrar na conversa.
Estávamos alimentados, havia alguma cerveja (quente), e nada mais. Excitados com a viagem, desconhecendo o local onde aportáramos, é de se imaginar que seria difícil dormir.
As redes foram sendo instaladas com apoio das pessoas que moram ali e que têm, por isso, uma tremenda naturalidade para lidar com aquilo que, para nós citadinos, era uma enorme privação.
No fim das contas, acabamos muito mais próximos uns dos outros do que se estivéssemos num auditório confortável de um hotel confortável, aclimatados, com luzes a nos fazer uma arredoma.
Não foi uma noite tranquila, estive atenta a ruídos estranhos, como era de se prever.
Aprendemos ali, com base naquela incrível vivência, sobre o quanto nos distanciamos de um jeito natural de viver.
E durante a conversa acompanhada pelas estrelas refletimos, ainda me lembro, sobre a verdadeira potência do humano.
Quem é mais potente? Aquele que se habitua a se movimentar sobre quatro rodas, que não se distancia do dispositivo eletrônico, que depende quase visceralmente da energia elétrica e dos confortos que este way olf life proporciona? Aquele que sabe se virar no escuro em plena Amazônia e cria, a todo momento, por pura necessidade, formas variáveis e singulares de vida?
Na sequência deste pensamento, consigo arranjar uma deriva que me leva a reflexões sobre o consumo, sobre o papel das cidades, sobre o desenvolvimento, verdadeiramente, sustentável.
Não há espaço, nesta reflexão, para polarização. Portanto, paro por aqui.
Ninguém é mais ou menos, apenas um.
Mas a proposta é liberar a possibilidade de sermos múltiplos, de abandonarmos a escravidão deste ou daquele jeito de viver.
Compartilho com vocês este momento solitário e silencioso. O som ao redor não se compara ao da Amazônia noturna. Mas a memória me levou lá.
Amelia Gonzalez
Arte/G1