Chuvas no Sul da Ásia atingem 200 mil refugiados que vivem em campos improvisados

Natureza

Um refugiado rohingya caminha ao lado de uma lagoa em campo de refugiados de Balukhali, perto de Cox’s Bazar, em Bangladesh
Tyrone Siu/Reuters
Um estudo publicado pelo Banco Mundial na quinta-feira (28) mostra que o Sul da Ásia é e será altamente vulnerável às mudanças climáticas. Por causa disso, as condições de vida de 800 milhões de pessoas serão reduzidas drasticamente, segundo reportagem publicada no “The New York Times”. Note-se que a região já abriga algumas das pessoas mais pobres do mundo, entre elas o povo Rohingya, descrito pelas Nações Unidas, em 2013, como a minoria mais perseguida de todo o planeta.
Agora, parem para pensar e dividam comigo, por favor, minha perplexidade.
A notícia é que existe uma região no mundo que já está sendo e será ainda mais atacada pelos fortes eventos extremos que têm sido causados pela mudança de clima no planeta. Dentro dessa região, já bastante privada daquilo que no Ocidente se costuma chamar de “bem estar social”, existem pessoas, cerca de um milhão, desprovidas disso e que podem ficar ainda em pior estado quando os eventos extremos causados pelas mudanças climáticas açoitarem ainda mais o lugar. E por que os Rohingya, muitos agora em campos de refugiados em Bangladesh, não terão a ajuda necessária? Por causa de racismo, simplesmente isso. Vou explicar melhor.
Antes, porém, é preciso fazer um foco mais detalhado ao estudo publicado pelos cientistas. A reportagem do “The New York Times” diz que foram analisados todos os seis países do sul da Ásia (Índia, Butão, Paquistão, Mianmar, Sri Lanka, Bangladesh e Nepal), onde as temperaturas médias anuais estão subindo constantemente e os padrões de precipitação já estão mudando.
Os dados se concentraram em mudanças no tempo cotidiano e identificaram os pontos críticos, nos quais os cientistas acreditam que a deterioração seja mais severa. Tais pontos são caracterizados pelo baixo consumo das famílias, pela baixa conectividade rodoviária, pelo acesso limitado aos mercados e a outros desafios de desenvolvimento, diz a reportagem. Ou seja, pessoas pobres. E, se nada for feito para mudar o cenário das mudanças climáticas, as dificuldades vão piorar, e muito, para elas.
“O estudo observou que algumas das partes mais quentes da região do Paquistão estão ficando mais quentes de forma rápida. De 1950 a 2010, por exemplo, o oeste do Afeganistão e o sudoeste do Paquistão já viram as temperaturas médias anuais subirem na faixa de 1ºC a 3ºC”, diz a reportagem.
Agora, volto ao ponto ao qual me refiro no início do texto. Ocorre que nessa mesma região, que está sendo alvo de preocupação dos cientistas, quase um milhão de pessoas estão ainda mais vulneráveis às tempestades, ao calor, aos furacões. Expulsos pelo governo de Mianmar – país que também está no alvo dos eventos extremos – os Rohingya estão vivendo hoje à mercê de chuvas, ventos, tempestades. Trata-se de uma minoria muçulmana em país de maioria budista que é vítima das maiores atrocidades e perseguições, o que já foi classificado como “um caso clássico de limpeza étnica” por Zeid Ra’ad al-Hussein, alto comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos.
O Conselho de Direitos Humanos está reunido em Genebra para debater sobre este caso, e o governo de Mianmar replicou a crítica de Hussein, dizendo que os hindus também estão sendo vítimas dos Rohingya. Fato é que mais de 11.400 Rohingyas fugiram do estado de Rakhine em Mianmar este ano, e todos os entrevistados pela equipe de Hussein relataram a continuação da violência e dos abusos, disse ele ao conselho.
O povo Rohingya representa cerca de 5% entre 60 milhões de habitantes de Mianmar, e sua origem ainda é amplamente debatida. Eles afirmam serem indígenas do Estado de Rakhine, anteriormente conhecido como Arakan, no oeste do país. Mas os cidadãos de Mianmar dizem que, na verdade, são muçulmanos de origem bengali que migraram para aquele país durante a ocupação britânica.
Os Rohingya não são reconhecidos como cidadãos em Mianmar, o que quer dizer que não têm direito algum. Por conta disso, há mais de cem mil crianças entre os 200 mil refugiados deste povo que estão atualmente em campos em Bangladesh numa espécie de cidade temporária, construída com folhas de plástico e bambu. As chuvas que estão castigando o local deixam o cenário ainda mais absurdo porque parte deste acampamento está sofrendo risco de inundação.
Busquei saber o que pensa o bengali Muhammad Yunus, Prêmio Nobel da Paz em 2006, sobre a situação deste povo. E não me decepcionei. Como qualquer cidadão com um senso crítico razoável, Yunus defende ações imediatas para acabar com o calvário daquelas pessoas. Escreveu, no ano passado, uma carta para o Conselho de Segurança das Nações Unidas em que lembra, entre outras coisas, que Bangladesh e Mianmar têm “razões convincentes para serem os melhores amigos”.
Yunus fala sobre parceria, e é neste ponto que gero minha reflexão. A humanidade já viveu tempos bem difíceis, sem a ajuda da tecnologia, em que até mesmo sair à rua dava medo, eram muitos os perigos de se ficar doente sem remédio. As guerras entre tribos eram comuns. As migrações internacionais também. O tráfico de escravos foi a maior migração em massa forçada da história, segundo ensina Deepak Nayyar em “A corrida pelo crescimento” (editado pelo Instituto Celso Furtado).
Hoje, mais aparelhados, enfrentamos outra adversidade séria, que são as mudanças climáticas. E as migrações continuam, embora a escravatura, naquele formato oficial, tenha sido abolida. O que também não muda é esta absurda violência entre pessoas por causa de etnias diferentes, religiões diferentes, idiomas ou culturas diferentes.
Já que me chamo Amelia, vou me permitir um sonho à La Amelie Poulain, personagem de cinema que se dedica a fazer mais feliz a vida das pessoas que passam pela sua própria vida. Nesta fantasia, como seria melhor um mundo em que as pessoas, cansadas de tanta luta que só traz terror, se juntassem para enfrentar o inimigo maior, as tormentas naturais. No sonho, seria preciso mesmo traçar um plano para evitar que os gases poluentes trouxessem ainda mais problemas.
Mas aí, seria preciso resgatar uma palavrinha mágica – solidariedade – que o sistema econômico empurrou para longe ao destacar como vantagens o acúmulo de capital e a desigualdade. Saindo do sonho para a realidade, o fato é que no mundo se espalham “rohingyas” e, enquanto gastamos energia para tentar fazer parar a luta entre humanos, a natureza se esmera em demonstrar toda sua força contra as agressões que vem sofrendo desta mesma raça. Tempos difíceis.