Investidor estrangeiro retirou mais de R$ 17 bilhões da bolsa desde fevereiro

Economia

Greve dos caminhoneiros e volatilidade no exterior afastaram ainda mais o capital externo que havia beneficiado a Bovespa no início de 2018; entenda o movimento. Entrada da B3, em São Paulo.
Paulo Whitaker/Reuters
O ambiente instável no Brasil e a aversão ao risco no exterior têm levado os investidores estrangeiros a se desfazerem das ações que compraram por aqui. Após injetarem um volume expressivo na bolsa no início do ano, eles passaram a evitar o risco e já retiraram R$ 17,6 bilhões desde fevereiro.
O pior momento ocorreu em maio, por efeito da greve dos caminhoneiros, quando eles resgataram um volume recorde de R$ 8,4 bilhões da B3. E a insegurança após a paralisação fez essa sangria aumentar ainda mais. Nos primeiros 13 dias de junho, saíram da bolsa mais R$ 4 bilhões.
“Os estrangeiros já vinham desconfiados com o Brasil e os desdobramentos da greve só aceleraram a decisão de deixar a bolsa”, explica Alexandre Póvoa, presidente e sócio da Canepa Asset Management.
O receio do mercado cresceu com a saída de Pedro Parente do comando da Petrobras e a indefinição sobre a política de preços da estatal. As ações da empresa já perdem 22% no acumulado de junho.
Para piorar, o impasse sobre a tabela de preços mínimos para o frete também deixou os investidores mais cautelosos, assim como o desconto concedido pelo governo sobre o preço do diesel. A previsão do rombo nas contas públicas subiu para R$ 151 bilhões este ano, por conta deste subsídio.
Outro aspecto que preocupa é o cenário eleitoral. De acordo com Bandeira, o humor do mercado azedou diante da perspectiva de uma corrida presidencial com a liderança de candidatos que não incluem em suas propostas as reformas vistas como necessárias para equilibrar as contas do governo.
Ibovespa perde 17% em um mês
O clima desfavorável teve reflexos na forte queda do Ibovespa, principal índice de ações brasileiro, que acumula desvalorização de quase 17% no último mês. Nesta sexta-feira, o índice perdeu 0,93%, aos 70.757 pontos, alcançando o menor patamar desde agosto do ano passado.
Desde o início de maio, as principais ações da bolsa “derreteram” em valor de mercado. A queda mais evidente foi a da Petrobras, que havia perdido R$ 88,7 bilhões até o dia 11 de junho, segundo dados da Economatica. A empresa mais valiosa do mercado acionário, a Ambev, encolheu R$ 68,2 bilhões. Entre as grandes, a única que não foi afetada foi a Vale.
Os principais bancos do país também sentiram o peso da desconfiança do mercado. Itaú Unibanco desvalorizou mais de R$ 62,4 bilhões, enquanto Bradesco recuou R$ 50 bilhões no mesmo período, ajudando a empurrar o Ibovespa para baixo, dada sua forte influência no índice.
Busca por ativos mais seguros
Para o economista-chefe da Modalmais, Alvaro Bandeira, a saída dos estrangeiros não indica, necessariamente, que eles perderam o interesse pelo país. Eles ainda respondem por metade de todos os investimentos na B3.
“Parece mais um movimento em busca de proteção para investimentos em renda fixa, como os títulos públicos”, avalia. O Tesouro vem suspendendo continuamente a negociação dos títulos, em meio à forte volatilidade dos juros destes papéis, que foram reprecificados diante do novo cenário nos mercados.
“Pode até haver um fluxo maior de capital para o exterior, mas não será majoritário”, diz o economista da ModalMais. Nos seis primeiros dias úteis de junho, a saída de dólares das aplicações financeiras do país superou as entradas em US$ 2,8 bilhões, segundo o BC.
Homem caminha em frente à sede do Federal Reserva em Washinton, DC
REUTERS/Jonathan Ernst
Novo arranjo do fluxo no exterior
No exterior, os mercados emergentes têm sofrido uma forte desvalorização de suas moedas, em meio à expectativa de que os Estados Unidos devem aumentar os juros este ano em um ritmo mais acelerado, atraindo recursos para a maior economia do mundo, que concentra os ativos mais seguros contra calotes.
“O mercado lá fora está ficando mais seletivo”, frisa Alexandre. “Os juros dos EUA ficaram muitos anos perto de zero a agora começam a ficar mais atrativos, mesmo que ainda muito baixos em relação a outros mercados”.
Também compete para abalar os mercados a intensificação da guerra comercial entre EUA e China. Nesta sexta-feira, Trump anunciou a implementação de uma tarifa de 25% sobre US$ 50 bilhões em bens importados da China e prometeu impor mais taxas se houver medidas retaliatórias, elevando a tensão comercial entre as maiores potências do mundo.
Escalada do dólar
A mudança dos fluxos de capital que desvalorizou moedas emergentes também está afetando o Brasil e tem obrigado o Banco Central a injetar um volume ainda maior de swaps cambiais (equivalente à venda futura de dólares) para tentar conter o câmbio.
Dólar cai mais de 2% e fecha a semana a R$ 3,72 após nova ação do BC
Entenda: swap cambial, leilão de linha e venda direta de dólares
Há uma semana, o órgão informou que ofertaria US$ 20 bilhões em contratos novos de swap, para além da oferta diária de US$ 750 milhões. E mesmo diante de uma nova disparada da moeda na quinta-feira (14), o órgão anunciou que vai reforçar a intervenção com mais US$ 10 bilhões. “O BC ainda tem muito espaço para agir”, diz Bandeira.
“O cenário não é favorável para os emergentes, mas o Brasil ainda está em posição melhor que seus pares como Argentina, África do Sul e Turquia, que tiveram que disparar os juros para conter o dólare, acrescenta o economista da ModalMais.
“O Brasil está desajustado mas ainda é um gerador de dólares, tem um saldo positivo na balança comercial e investimento direto estrangeiro que cobre muito o pequeno déficit em conta corrente”, diz Bandeira.