Fernando Trevisani apresenta o ensino híbrido

São Paulo

Mestre em tecnologias educacionais fala sobre a importância em usar a tecnologia a favor do aprendizado. Ao longo do tempo, o ensino vem passando por muitas transformações. Hoje, a escola e a tecnologia se configuram com novos papéis, atendendo demandas do século XXI. Diante deste cenário nasce o ensino híbrido, um modelo de educação formal que mescla dois modos de ensino: o online e offline.
No primeiro, aluno estuda sozinho aproveitando o potencial das ferramentas online e no segundo, estuda em grupo, com professores e colegas, valorizando a interação e o aprendizado coletivo e colaborativo.
Fernando de Mello Trevisani foi coordenador do grupo de experimentações em ensino híbrido e um dos organizadores do livro “Ensino Híbrido: personalização e tecnologia na educação”. Ele traz um pouco de seu conhecimento e experiências sobre essa maneira de ensinar e aprender.
1. O que é ensino híbrido?
FT: Os modelos de ensino híbrido combinam dois momentos de aprendizado que devem se complementar: um momento que chamamos de aprendizado online, em que usamos uma tecnologia digital para coletar dados de desempenho dos alunos, e outro momento em que o aprendizado acontece offline, ou seja, sem o uso da tecnologia digital, mas com trabalhos presenciais e em grupo que visam promover a construção do conhecimento de maneira colaborativa.
2. No Brasil, como surgiu este conceito?
FT: Em 2014, a Fundação Lemann e o Instituto Península organizaram um grupo de experimentações em ensino híbrido para aplicarem uma proposta de Blended Learning que estava sendo utilizada em escolas americanas baseadas em pesquisas do Instituto Clayton Christensen. Esse grupo se propôs a estudar o ensino híbrido seguindo essa definição. Esse modelo que temos no Brasil se formou a partir do que foi aplicado por professores brasileiros em escolas públicas e privadas, de acordo com nossa realidade.
3. Como a chegada dos computadores na sala de aula mudou a forma de ensinar e aprender?
FT: Acredito que a tecnologia digital possibilitou ao professor novas maneiras de elaborar, de planejar e, ao aluno, de ter novos acessos à informação. A escola deixou de concentrar o conhecimento só nela, o aluno chega cheio de informações e cabe ao professor mediar a construção de novos conhecimentos e também a forma de aprendê-los.
4. Como se dá a implementação do ensino híbrido dentro de uma escola?
FT: O ensino híbrido provoca mudanças em vários aspectos, como no papel do aluno e do professor. Por isso, é importante começarmos pela formação dos professores com a conscientização de que é possível criamos um ambiente de aprendizagem que integre o aprendizado com tecnologias digitais e o aprendizado coletivo, colaborativo. Isso passa por vários pontos, com mudanças desde a forma como a gestão escolar pensa a formação dos professores, em novas formas de ensinar, na modificação dos espaços escolares, que devem ser ressignificados na sua essência, dentre outras. É um processo de mudança de cultura que gera resultados excelentes.
5. Quais as dificuldades e os desafios a serem vencidos?
FT: A maior dificuldade é que todos compreendam o papel da tecnologia no processo de aprendizagem. O celular hoje, na vida de um aluno, é uma extensão de si próprio. O ponto de atenção é olhar tecnicamente de como podemos potencializar o processo de ensino e aprendizagem. Por exemplo, ao estudar animais africanos, o professor pode acessar informações, pesquisas, e até, zoológicos online.
O maior desafio, na minha opinião, é que professores incluam e utilizem as tecnologias no seu planejamento, de forma concisa, potencializando o ensino dos conteúdos curriculares da escola.
6. Nesta nova proposta, qual o papel do professor e do aluno?
FT: O aluno passa de passivo para ativo, antes o professor era o detentor do conhecimento, hoje, ele é o mediador. Antes, o aluno desempenhava um papel mais solitário, hoje ele é colaborativo e isto gera segurança, autonomia e uma riqueza de conteúdo incomparável. É interessante considerarmos o aluno no centro da aula, torná-lo ator principal.
Aluno passa a ter papel colaborativo, o que gera segurança e autonomia
Colégio Uirapuru/Divulgação
7. Qual é a importância do planejamento da aula dentro do ensino híbrido?
FT: Planejar é fundamental para o sucesso da aula. O professor precisa pensar em cada momento da aula, fazer as interligações entre eles, relacioná-los para que o objetivo da aula seja atingido. Por exemplo, no modelo chamado rotação por estações os alunos são divididos em grupos e todos os grupos rotacionarão por estações de trabalho, cada uma com um objetivo individual, mas todas relacionadas com o objetivo maior da aula. Uma dessas estações deverá conter um trabalho que utilize uma tecnologia digital. Por isso, é preciso que o professor pense em quais os recursos utilizar, nas atividades que serão realizadas isoladamente em cada estação, mas considerando também como todas as estações juntas conseguirão atingir o objetivo final.
8. Quais os benefícios que o ensino híbrido traz? Quais as perspectivas dessas transformações na Educação para a formação do ser humano?
FT: O ensino híbrido possibilita diferentes formas de aprender. Para o aluno traz benefícios como autonomia e responsabilidade pelo seu próprio aprendizado. O aluno pode construir conhecimento de uma forma colaborativa, tendo voz e autoria na construção do conhecimento. O professor tem possibilidade de trazer diferentes processos, segundo as necessidades de cada um. Dessa maneira, o aluno tem um avanço maior, significa que a maneira de aprender vai ao encontro da sua necessidade.
Ensino híbrido possibilita diferentes formas de aprender
Colégio Uirapuru/Divulgação
9. Para os próximos anos, o que se pode esperar na forma de aprender e ensinar?
FT: Na minha opinião, a cada dia essas metodologias ativas ganham mais força. A tecnologia é uma realidade e a escola deve repensar o seu uso, de modo a potencializar e permitir diferentes formas de aprender. Isso tudo não substitui a educação presencial, mas com certeza ressignificará todo o processo.
Sobre Fernando de Mello Trevisani
Mestre em Tecnologias Educacionais e Educação Matemática (UNESP), Pós-Graduado em Educação Inovadora: Design, Autoria, Didática e Tecnologia (Instituto Singularidades) e Bacharel/Licenciado em Matemática (USP).